Depois de três dias seguidos, Paulinho continuava a correr pelas calçadas da grande cidade. Imaginava ali sua fortuna, tudo o que ganhara dos pais foi somente um par de chinelas e três mancebias. Corria ao encontro da aurora perdida da fome, aos cantos, de gauche da urbanização havia outros meninos de sua idade, cada qual com um olhar mais seco, cada um dele com sua paz desmembrada e fora do eixo. Paulinho corria ao encontro do Passeio, três putas à sua direita o fizeram parar, perguntara-lhe se tinha algum trocado ou isqueiro, nem um nem outro, continuava Paulinho. Em direção, agora, a um mistério na esquina com o Teatro principal, as peça começaria, já iniciava, era ator completo em perfeita denotação. Dentro do palco da vida, tinha um ato depois, quando a plateia se retirasse choraria até o fim do dia, ao alcance de meia-noite. Menino sozinho junto de três segredos que ninguém no mundo nunca saberia. Continuava sua caminhada às soltas, não tinha mãe que berrasse seu nome, nem pai que lhe convidasse ao convir, amigos poucos, sol na nuca e cabeça careça para remediar os piolhos. Num canto qualquer uma marmita em papel celofane, uma colherinha suja e lá se vai o menino a juntar sua fome com a grandeza do seu mundo; deveras ser um singular madrugueiro, dorme cedo, acorda cedo. Não discute por pequenas coisas, pensa serem indiscutíveis as histórias do dia-a-dia. Não tem sentido, não tem milagre nem hora certa. Numa hora dessas qualquer eu desmaio, pensa consigo e segue a diante. Como se fosse à primeira palavra alimenta da boca uma letra sem nobreza nem fantasia. Continua sua andança sendo um cantador deslocado, assovia e come algo dilatado, sem cor nem pecado. Chama, quando olha para trás, sua alegria, para que o siga, quer que venha junto e ela, meio disfarçada, compenetrada em deixar-lhe na mão nada responde, olha-o com desprezo e anseio. Nada mais neste dia acontece, tudo se esquece e nada, completamente, sai do lugar.
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