terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fiat Lux


A mãe tinha um Estado que deixaria ao filho mais novo. O filho mais velho, maduro de peito e chamado Pedro, imitava artistas da TV. O mais novo não tinha decência, andava de roller pelas escadarias da cidade e fumava maconha aos brejos. Um dia a mãe se foi, deixou uma ideologia para trás no coração de cada filho, um tornou-se comunista stalinista e o outro, anarquista que ouvia punk rock da pesada e pichava os muros das igrejas. O Estado virou uma tragédia em um só ato, a população vivia da fome, quanto mais se tinha menos sofria. Os comandantes do território, Pedro e Gabriel discutiam novos planos de governo. Foi liberada a droga que antes era considerada ilícita, os impostos de bebidas e cigarros baixaram, as boates abriram em dobro e o manifesto convencional da sociedade se fez. A ditadura dos filhos estava em meio a uma decepção horrorosa pelos gemidos da mãe. Nada podia ser feito. Pedro e Gabriel aproveitavam o data show do senado para jogarem videogame, os ministros cogitavam novos horários de trabalho, uma possível redução na carga e um aumento no caixa. A arrecadação do Estado era cada vez maior, e quanto maior era, mais se desviava das mãos do povo. Crianças tornavam-se órfãs de ruas escuras, os bares das noites frescas de chuva fina da capital viravam igreja e cada praça era um infortúnio, uma greve em cada poste. Mas um dia alguém se prostrou diante a tanta calamidade, tomou posse como se fosse um soldado, reagiu ao desespero dos loucos, a lua se concretizou acabada em luz pura, o povo se redimiu e Pedro com seu irmão, o mais novo voltaram à TV. Cada qual com seu canto. E depois disso a luz se fez.

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