
Já mandei dizer que não irei à festa hoje. Já pedi para cancelarem minha presença no Grandsellers do Portão. Durante este horário não farei absolutamente nada. Hoje, pela manhã, logo ao acordar me deparei com um pensamento dúbio, uma coisa que não saía de minha cabeça, pensei que tivesse morrido e estado no céu antes do tempo, mas nada ocorreu e depois, sem tocar em qualquer assunto, chegou uma moça me perguntando se eu tinha realmente coragem em fazer o que queria. Respondi prontamente que sim, entretanto, sem pensar para qual sentido me levaria tal palavra, sem refletir, coube-me sair da porta de entrada do shopping center e pegar a Avenida Três Apitos. Um carro em alta velocidade passou como um raio sob meus olhos e num tempo de quinze ou vinte segundos eu estava equivocado novamente, lembrava somente o meu nome sem o sobrenome, em seqüência disto me ocorreu outro pensamento, um pensamento lógico e sábio, - se é que existe sabedoria quando se assalta à própria mente – um estupro de minha consciência apareceu em forma de colisão interior. Detive-me com objetos de meu grado, depois conheci meu tataravô através de uma foto via e-mail, minha tia de Londres me remeteu às 22h14min da noite. Neste mesmo instante a festa ocorre feito solidez na casa da Gabi. No Portão tudo deve estar sob controle, qualquer descontrole alguém me avisaria. Acabo de lembrar que o meu celular perdeu a bateria. O pensamento duplicado, aos poucos, some da minha cabeça e, por incrível que pareça, encontro-me de frente com uma pessoa estranha, nunca antes visitada pelos meus olhos, o tempo na XV é de frio e o movimento some se adentrando pelos escombros dos becos insolúveis da grande cidade. A polícia detém três rapazes em uma tentativa de assalto à mão armada, são levados a socos e pancadas. Depois desta tragédia tudo volta ao ritmo lógico e trancafiado. Quando pensei que fosse entrar na loja barata de móveis e consertos de eletrodomésticos, uma senhora com mais ou menos um terço de século passou em minha frente, olhou-me de baixo até o último fio de cabelo e disse-me num tom sarcástico “olha garoto. Aqui quem manda é eu”. Fechei meus olhos que porventura estavam restritos a todo e qualquer movimento de fora da loja, continuei a caminhar e ela, a senhora ambígua e simulada, leve e solta, com óculos escuros em um verde musgo mais uma bolsa roxa a combinar com o batom, sentou-se à beira da porta da loja e eu fechei meus olhos enquanto tentava sobreviver.
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