- Esse lado teu eu não conhecia – pensativa.
- Que lado? Do que você está falando?
O silêncio acompanha as horas. Nenhuma palavra existe.
Vive-se em conflito. O
casal se dispersa. Ele torna a virar-se para o corredor enquanto ela se encosta
perfeitamente à parede gelada e nua. Sem boa noite nem beijo.
Dois meses depois ela está grávida com apenas 16 anos e ele
sem emprego. Ele, recostado à laje da casa fuma um cigarro, suas pernas tremem
em saber que um filho seu virá, um filho de mau gosto, um filho sem nome e sem
teto. Ele sente, mas não raciocina qualquer hipótese de sobressaída. Ela já
está nos nove meses e a barriga miúda, apenas redonda na parte central. Sobre
um surto desesperador a ambulância chega, sai em gritos uivados e chega ao
hospital. O bebê conhece a luz do mundo e tem suas boas vindas ao departamento
de doação, por pouco não fora abortado.
No outro dia ainda abatidos e tristes, porém, felizes com a
reluta e a reconquista de uma vida sem prendimentos, sem responsabilidades.
Ao contrário dos contos de fadas, o casal de enamorados não
se satisfaz em sua vida complacente e atinge o máster grau de loucura; ele
torna-se bandido criminoso e foge para Goiânia em busca de empréstimos. É preso
e condenado. Dentro da prisão conhece o livro sagrado e se regenera, em vinte
anos será libertado. Ela foge ao mundo em busca do filho deixado no hospital.
Infelizmente fora adotado, neste momento vive em uma mansão de pessoas
desconhecidas. A menina está com 15 anos e vive embutida em seu quarto com seus
afazeres. É estudiosa, misteriosa e guarda nos olhos uma sombra de dúvidas e
sangues.
O tempo passa e o antigo casal se reencontra. Vive no beco, fora os tédios e uivos sombrios, vive no topo. Quase nada, esquece da filha que neste momento é responsável por sua cidade. A cidade do casal é invadida por um filho deixado abstrato.
Na manhã seguinte, em qualquer dia:
- O que houve? Por que você está assim? Este teu lado eu desconhecia - pensativa.
- De que lado você está falando?
- Oras, do teu.
Na manhã seguinte, em qualquer dia:
- O que houve? Por que você está assim? Este teu lado eu desconhecia - pensativa.
- De que lado você está falando?
- Oras, do teu.

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