Seu
Genovásio, pelas bandas dos trinta e tantos teve dois filhos chamados migrantes
da própria terra. A todos que o viam interpelavam o dom da palavra:
-
Bom dia Senhor Genovásio! – e retirando o chapéu à francesa respondia ao termo.
Arredio,
furtivo e cauteloso, homem de fé, estrutura e comunicação. Forte como um
tronco, homem de ferro.
Marta
Maria, sua esposa, cabisbaixa, sempre austera recebia as ordens do marido e
detinha-se pelo quarto a rezar seus credos, tédios e santos de todas as ordens.
Marta fora dona de casa, dona da pia e da horta. Mulher divina deu à luz dois
pedaços de seu Genovásio, Carlos e Alberto.
Parte
após o meio da vida, Marta deixou o mundo para sobreviver da morte, esquecera
os díspares segredos da respiração e sufocara-se pelo canto esquerdo da sombra.
Seu
Genovásio em meio à década seguinte viajara a trabalho para Crato, no Ceará,
terra do padinho Ciço, e ao deixar as responsabilidades administrativas aos
dois filhos, os alertou: “cuidem do que virá a ser de vocês”.
Ao
dividirem as tarefas, Alberto preferiu dentro da lavoura, os animais,
carneiros, galinhas e vacas, Carlos, por sua vez, decidiu ficar com a plantação
de milho e feijão. Os dois passavam oras a trabalhar no duro esforço, com
vontades cada vez maiores de trazerem ao pai o bem imaginável, o orgulho de ser
trabalhador.
A
crueldade algumas vezes aparecia vestida de santa, outras vestida de tédio. O
rubro esforço os detinha a pensarem nas mais diversas possibilidades de se ter
um Genovásio feliz e animado com a ordem natural a que se havia deixado o
sertão.
Tempos
se passaram, Genovásio não mais apareceu, somente uma grinalda, uma menina moça
vestida de cetim, cabelos encaracolados e de olhos azuis pela estrada da frente
da casa. No exato momento Alberto pusera os olhos de encontro com a madame, ela
sorriu sorrateiramente e continuou a caminhar.
-
Irmão – disse Alberto para Carlos – vou até a venda comprar alguma coisa que me
falta.
-
quer que eu o leve? Estou com o carro aqui próximo! Ao que em resposta veio um
não quase agressivo de Alberto.
Ao
cruzar a esquina na qual quase todos do vilarejo diziam haver uma noiva a esperar
o primeiro moço virgem passar, Alberto notou de longe os cabelos da madame a se
perderem pela estrada, ao passo que soltou do peito um grito cruel e digno de
guerra:
-
Espere! Espere!
A
moça olhou para trás, voltou os passos até que Alberto a alcançou. Do fruto
perdido da noite saíram milagres e sutilezas, cruzaram a noite a contar
histórias fiéis e ridículas de enamorados pelo nada.
Carlos
esperava pelo irmão, cansado e regresso, até que pela melhor parte da
madrugada, entre grilos e sapos reis, a porta bate, sapatos caem e o rangido
triste e celeste da janela se fecha. Alberto chegou.
De
manhã, Carlos afoito pergunta ao irmão:
-
onde estivera à noite?
Nenhuma
resposta encontra, nenhum diálogo, nenhum som.
Carlos
desamadurece o pensamento e sai aos poucos para o espaço reservado de sua alma,
para os cuidados de seu plantio. Enquanto Alberto ainda sonâmbulo, fora de si,
inimagina o que acontecera na noite anterior.
Perto
de meio-dia o suor a cair pela face de Carlos, quando amedrontado se dá de
frente com uma mulher moça, de um jeito diferente do que sempre lhe ocorreu à
memória, ela o chama até o portão da cerca e ele, aos poucos, como hipnotizado
começa a desfacelar o pouco que lhe sobra de sentido, indaga qualquer coisa da
boca e foge aos barrancos com a megera. Volta
a casa perto da meia noite, olhos vermelhos, cansado, cai sobre a cama feito
morto num caixão. Apaga.
No
outro dia, Alberto indigno e cruel lhe tece a pergunta de dentro para fora?
-
onde estivera meu irmão?
Sem
resposta, toma mais um tanto do café sem açúcar, sem doce, sem nada. Mais uma
vez insiste na pergunta:
-
fora em lugar especial? Tem visto um passarinho verde?
O
monólogo intercedeu parte da vida de cada um que se encontrava naquele instante
furtivo, devastador e sem critérios.
A
sabedoria humana, por vezes, é indigna de remeter uma ciência a uma plantação
de milho e feijão. Os carneiros a berrarem do outro lado da cerca e os irmãos a
dizerem coisa nenhuma dentro da casa. Nenhum ruído, apenas dos infestados ratos
do porão a caminharem rapidamente de um canto da casa até o outro, a rirem do
tédio malogrado.
Inicia
o desfalecimento na casa de seu Genovásio, o antigo homem de luz e brio que
fora ao longe de suas nuances deixara marcas já gastas pelo tempo. Os filhos
iniciam a jornada da loucura, o arrebatamento dos loucos, os fins de noite nas
casas noturnas com putas de todos os cheiros, o álcool a produzir relâmpagos na
cozinha, nos quartos e sala de jantar.
Acontece no ar o descompromisso, de início uma
retração, depois se torna prazer. O trator do lado de fora espera Carlos, a
enxada aguarda as mãos de Alberto, ambos esperam sem saber quando voltarão.
“Um
causo: aconteceu que um dia, eu andando de lá pra cá, vi um lobo guará pelo
meio das pernas a sair correndo de frente a uma onça destas pretas que cruzam o
milharal. Quando levei os dedos tortos no gatilho da espingarda a mulher de
branco apareceu, foi quando eu, Carlos Silverino de Afonseca, soltei dois
berros do duplo cano da penhadeira, saiu fumaça pra todo canto. Foi quando eu
num canto, escondido e tímido”...
Faz
muito tempo que seu Genovásio se fora e por aqui voltara, não davam três dias e
estava desesperado correndo a estrada fria da amargura.
Uma
parte no vilarejo até hoje diz que quando Carlos atirou, não foi nem lobo nem
onça que apareceram momento antes, mas sim, o seu próprio irmão, Alberto, que
correu aos braços da madame de vento que os dois se lambuzavam, foi quando o
próprio irmão se atirou em frente à fêmea para salva-la e Carlos meteu dois
disparos de chumbos sem reza brava. Alberto caiu antes mesmo do sangue começar
a lhe escorrer pelo peito, não ouvira mais nada, nem sonhos tivera.
E
foi assim que seu Genovásio, o senhor mundano dos sóbrios caprichos deixou dito
que Carlos cometera um crime e pagaria pelo pecado. Carlos, à beira do abismo,
a pedir para que o próprio pai o empurrase lamentou: “O primeiro tombo será o
meu”, e levantando a cabeça ouviu do pai: “Viverás à margem porque tudo em ti
conheço, és meu filho e em teu destino mando”, e de repente Carlos dispara, de
um só estrondo o cano milagroso dentro da vida, “ o metal conhece melhor a
carne, ele aprofunda as veias, empobrece o sangue e retira de dentro da
sutileza a fiel e escudeira amiga chamada Destreza”.
A
moça chamava-se o que vinha do exterior para o interior de cada um, e Carlos
Alberto, na verdade, era um só homem.

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