terça-feira, 6 de março de 2012

Setenta e sete



 “O castigo é grande demais para suportá-lo. Eis que hoje me expulsas da face deste solo fértil e devo ocultar-me diante de teu rosto. Quando estiver fugindo e vagueando pela terra, quem me encontrar, matar-me-á”. (Gênesis 4-5)

            Seu Genovásio, pelas bandas dos trinta e tantos teve dois filhos chamados migrantes da própria terra. A todos que o viam interpelavam o dom da palavra:
            - Bom dia Senhor Genovásio! – e retirando o chapéu à francesa respondia ao termo.
            Arredio, furtivo e cauteloso, homem de fé, estrutura e comunicação. Forte como um tronco, homem de ferro.
            Marta Maria, sua esposa, cabisbaixa, sempre austera recebia as ordens do marido e detinha-se pelo quarto a rezar seus credos, tédios e santos de todas as ordens. Marta fora dona de casa, dona da pia e da horta. Mulher divina deu à luz dois pedaços de seu Genovásio, Carlos e Alberto.
            Parte após o meio da vida, Marta deixou o mundo para sobreviver da morte, esquecera os díspares segredos da respiração e sufocara-se pelo canto esquerdo da sombra.
            Seu Genovásio em meio à década seguinte viajara a trabalho para Crato, no Ceará, terra do padinho Ciço, e ao deixar as responsabilidades administrativas aos dois filhos, os alertou: “cuidem do que virá a ser de vocês”.
            Ao dividirem as tarefas, Alberto preferiu dentro da lavoura, os animais, carneiros, galinhas e vacas, Carlos, por sua vez, decidiu ficar com a plantação de milho e feijão. Os dois passavam oras a trabalhar no duro esforço, com vontades cada vez maiores de trazerem ao pai o bem imaginável, o orgulho de ser trabalhador.
            A crueldade algumas vezes aparecia vestida de santa, outras vestida de tédio. O rubro esforço os detinha a pensarem nas mais diversas possibilidades de se ter um Genovásio feliz e animado com a ordem natural a que se havia deixado o sertão.
            Tempos se passaram, Genovásio não mais apareceu, somente uma grinalda, uma menina moça vestida de cetim, cabelos encaracolados e de olhos azuis pela estrada da frente da casa. No exato momento Alberto pusera os olhos de encontro com a madame, ela sorriu sorrateiramente e continuou a caminhar.
            - Irmão – disse Alberto para Carlos – vou até a venda comprar alguma coisa que me falta.
            - quer que eu o leve? Estou com o carro aqui próximo! Ao que em resposta veio um não quase agressivo de Alberto.
            Ao cruzar a esquina na qual quase todos do vilarejo diziam haver uma noiva a esperar o primeiro moço virgem passar, Alberto notou de longe os cabelos da madame a se perderem pela estrada, ao passo que soltou do peito um grito cruel e digno de guerra:
            - Espere! Espere!
            A moça olhou para trás, voltou os passos até que Alberto a alcançou. Do fruto perdido da noite saíram milagres e sutilezas, cruzaram a noite a contar histórias fiéis e ridículas de enamorados pelo nada.
            Carlos esperava pelo irmão, cansado e regresso, até que pela melhor parte da madrugada, entre grilos e sapos reis, a porta bate, sapatos caem e o rangido triste e celeste da janela se fecha. Alberto chegou.
            De manhã, Carlos afoito pergunta ao irmão:
            - onde estivera à noite?
            Nenhuma resposta encontra, nenhum diálogo, nenhum som.
            Carlos desamadurece o pensamento e sai aos poucos para o espaço reservado de sua alma, para os cuidados de seu plantio. Enquanto Alberto ainda sonâmbulo, fora de si, inimagina o que acontecera na noite anterior.
            Perto de meio-dia o suor a cair pela face de Carlos, quando amedrontado se dá de frente com uma mulher moça, de um jeito diferente do que sempre lhe ocorreu à memória, ela o chama até o portão da cerca e ele, aos poucos, como hipnotizado começa a desfacelar o pouco que lhe sobra de sentido, indaga qualquer coisa da boca e foge aos barrancos com a megera.             Volta a casa perto da meia noite, olhos vermelhos, cansado, cai sobre a cama feito morto num caixão. Apaga.
            No outro dia, Alberto indigno e cruel lhe tece a pergunta de dentro para fora?
            - onde estivera meu irmão?
            Sem resposta, toma mais um tanto do café sem açúcar, sem doce, sem nada. Mais uma vez insiste na pergunta:
            - fora em lugar especial? Tem visto um passarinho verde?
            O monólogo intercedeu parte da vida de cada um que se encontrava naquele instante furtivo, devastador e sem critérios.
            A sabedoria humana, por vezes, é indigna de remeter uma ciência a uma plantação de milho e feijão. Os carneiros a berrarem do outro lado da cerca e os irmãos a dizerem coisa nenhuma dentro da casa. Nenhum ruído, apenas dos infestados ratos do porão a caminharem rapidamente de um canto da casa até o outro, a rirem do tédio malogrado.
            Inicia o desfalecimento na casa de seu Genovásio, o antigo homem de luz e brio que fora ao longe de suas nuances deixara marcas já gastas pelo tempo. Os filhos iniciam a jornada da loucura, o arrebatamento dos loucos, os fins de noite nas casas noturnas com putas de todos os cheiros, o álcool a produzir relâmpagos na cozinha, nos quartos e sala de jantar.
             Acontece no ar o descompromisso, de início uma retração, depois se torna prazer. O trator do lado de fora espera Carlos, a enxada aguarda as mãos de Alberto, ambos esperam sem saber quando voltarão.
            “Um causo: aconteceu que um dia, eu andando de lá pra cá, vi um lobo guará pelo meio das pernas a sair correndo de frente a uma onça destas pretas que cruzam o milharal. Quando levei os dedos tortos no gatilho da espingarda a mulher de branco apareceu, foi quando eu, Carlos Silverino de Afonseca, soltei dois berros do duplo cano da penhadeira, saiu fumaça pra todo canto. Foi quando eu num canto, escondido e tímido”...
            Faz muito tempo que seu Genovásio se fora e por aqui voltara, não davam três dias e estava desesperado correndo a estrada fria da amargura.
            Uma parte no vilarejo até hoje diz que quando Carlos atirou, não foi nem lobo nem onça que apareceram momento antes, mas sim, o seu próprio irmão, Alberto, que correu aos braços da madame de vento que os dois se lambuzavam, foi quando o próprio irmão se atirou em frente à fêmea para salva-la e Carlos meteu dois disparos de chumbos sem reza brava. Alberto caiu antes mesmo do sangue começar a lhe escorrer pelo peito, não ouvira mais nada, nem sonhos tivera.
            E foi assim que seu Genovásio, o senhor mundano dos sóbrios caprichos deixou dito que Carlos cometera um crime e pagaria pelo pecado. Carlos, à beira do abismo, a pedir para que o próprio pai o empurrase lamentou: “O primeiro tombo será o meu”, e levantando a cabeça ouviu do pai: “Viverás à margem porque tudo em ti conheço, és meu filho e em teu destino mando”, e de repente Carlos dispara, de um só estrondo o cano milagroso dentro da vida, “ o metal conhece melhor a carne, ele aprofunda as veias, empobrece o sangue e retira de dentro da sutileza a fiel e escudeira amiga chamada Destreza”.
            A moça chamava-se o que vinha do exterior para o interior de cada um, e Carlos Alberto, na verdade, era um só homem.

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