quinta-feira, 8 de março de 2012

O poço da eterna salvação




            Malécia pelo nome já não presta, começando do mal, sempre é de se divertir com a cara dos outros, zomba e desfruta da própria existência.
Acordada às seis da manhã, seus filhos todos morreram na guerra do cartucho, um voltou sem braços e esgoelou-se no pessegueiro, o outro voltou dentro das botas e sem bucho, a mulher apenas conferiu a mercadoria e despachou ao cemitério dos cachorros e das malárias.
Lá do outro lado da rua mora dona Zionora, a mulher mais faceira do bairro, mas sempre que se esconde em seu barraco começa a chorar, uns dizem que ela é a pessoa mais biruta da terra, outros, que ela vira lobisomem, e outros ainda tem a preeminência de dizer que a velha é rei do facão, joga para os dois lados e que não escolhe patrão, isso fica à consideração de cada esquisitice.
Juntando as duas num balde dá chimarrão e conversa fiada, Malécia pelo mal que faz e Zionora por chorar por trás, vivem sem rima, não pelo conto mas por estarem sempre acima, má, Malécia fofoca da vida de Jordão, não do rio mas do filho de seu João, rapaz que vive caindo de bêbado e esquece o próprio nome, tomba nas lombadas e esfrega o queixo no asfalto, e noutro dia está lá ele, na farmácia de seu Pedro, pedindo chá com limão, isso não te faz nada querido, “toma caipira e caia, seu vagabundo de uma figa”, não que o diga de frente, mas por costas é outro caso, ninguém mesmo liga, não é?
Zionora alegre e sorridente confirma que no próximo sábado tem bingo, lá irão as duas maladeiras conchavadas de braços pendurados e com as mãos na boca ao focar o filho da Creuza louca e dizerem: “meu Deus, meu Santo, repente não digo, louca! Olha que pedaço delinqüente, que rapaz mais bezerrão”.     Chegam ao famoso bingo na casa de Seu Inácio, as lavadeiras, os compadres, os bêbados e as equilibristas, sorridentes e prudentes, começa a rodada, “olha a blusa do José”, sorriem, “bola 9”, “olha a toca da Leonora”, risos, ninguém se pára ou dispara, “bola 7”, “olha só o cinturão do Maurício, cabrito”. “Dez, venci!” diz o Alemão. “Sou eu, patrão!” responde a senhora de costas. “Minha bola, retardada de uma velha”, retruca ainda o estrangeiro. Pára o jogo, “eu não lhe informei que este bola ser minha? Ora bolas”, pára tudo, pára. Jeovásio mete tiro pelo teto que levanta fumaça, ninguém respira, tudo imóvel, (Zionora e Malécia sorriem ainda mas baixinho, uma para a outra diz: “olha só, que revólver brilhante, onde será que o maldito comprou”?).
Foi brava a festa, ninguém saiu ferido, toda despesa ficou por conta do pobre Inácio, as bolinhas todas foram perdidas, tudo por causa de um charlatão, “calma meu pessoal querido, com a renda do próximo São João podem crer que eu comprarei outras esquiavinhas de jogo, mas por enquanto eu conserto o que tenho perdido aqui, tudo bem”.
Motivo de usufruir palavras alheias por um mês e três dias a fio, “louca! Louca! Você viu só? Aquilo foi um escândalo, tudo isso anda tão perigoso, deste jeito não dá mais nem para sairmos de casa tranqüilas”, “tem razão”.
Missa de domingo, sol de lavanda, roupas no varal, sapatos pelo chão, fogão à lenha acendido e como faz quentura, a cozinha parece espalhar-se pelo ar, em cima do fogo a panela de pressão com seu ruído feito compressão, a turbilha de cima vai rodando rodando rodando até que pára, ninguém vê, mas a casa é da Malécia. “Corram!!!” ninguém por perto, estoura, voa caco por tudo, o fogão vira sucata e o telhado vai à lua, o feijão torna-se tinta de parede e o couro do porco vira almofada para as criancinhas. Gritos! Lá aonde vêm as senhoras desesperadas, Zionora aos prantos, “Deus, Deus, o que aconteceu”? Malécia entruncada com o paninho sobre o ombro esquerdo e correndo diz: “acho que um terrorista entrou na minha casa”. Não se ri e crê até o momento em que vê sua cozinha e toda a vizinhança na sua porta.
Depois do atentado da panela de pressão tudo ficou instável, alguns ajudaram, outros nem quiseram e outros de seu feijão se aproveitaram, a missa foi as onze e rezada pela memória da cozinha da mulher, as pessoas estavam espantadas e atentas a tudo e a todos. Malécia diz para Zionora: “Olha ali, ali ó, o Petróski comprou uma calça nova, menina, ta vendo só? Depois diz não ter dinheiro, não tem o cão que me morda, traste de uma figa, meu dinheiro até hoje não vi a cor”, Zionora se esquiva e reprime, “calma mulher, o padre ta olhando pra cá”. “Queridos irmãos e irmãs, estão todos dispensados, em nome de todos os bens e poderes lavados do mal e da inquietude, agora por gentileza, saldai-vos uns aos outros com a paz, e não esqueçam de pôr na travessinha ali, dinheiro e saúde, muito obrigado”.
Fora da igreja o canto dramático das tigueras e das gaivotas, mulheres e homens todos falando ao mesmo tempo: “você viu só? E você, viu ele? E você, viu ela? E você; viu só o jaquetão do infeliz”? O padre sai de sua postura para fora, já com roupa de sair, com a travessinha debaixo do braço e perguntando: “quem estourou a panela de pressão”? Aos pulos e gritos Malécia corre aos seus pés e beija suas mãos, “padre padre, foi em minha casa, foi terrível, proteja-me padre, reverendíssimo me abençoa, dai-me sua palavra”, o padre levanta um canto do olho, suspira fundo e diz: “ta dada a palavra, abençôo-te mulher, agora siga aquele caminho e vai até o poço das virtudes, joga lá vinte à trinta notas verdes e depois reza três vezes a mesma oração”, as pessoas se surpreendem, ela conseguiu, ela conseguiu, a Malécia, o padre, nossa!
Depois de dois minutos lá estava toda a população do bairro e Malécia com sua riqueza, não que tinha tanto dinheiro, mas tinha o que o padre a indiciou como gratidão à salvação, a palavra e a benção. O poço tinha cinco metros de profundidade e fora construído na mercê da idade, quando Malécia tinha lá seus dezoito, deveria estar até a boca de moedas e notas, o problema é que era tão escuro que ninguém nunca via nada, sempre que chovia, a água escoava pelos ladrilhos de baixo onde continham todas as ruínas de escorregamento, uma manivela estava enferrujada e já não prestava para mais nada, e dali que se houveram milhares de boatos de que a lontra da noite se transformava num gato e descia até o fundo do poço para roubar-lhes o dinheiro, e por isso que nunca aparecia o bendito, outras pessoas afirmavam que ali vários bandidos de categoria tentaram descer para resgatar a dinheirama, entre eles o Rasga Pavil, o João Filé, até mesmo o Roda Peão, homem que nunca se entregou por bem, hoje já está onde quer que saiba, se foi desta vida para outra melhor ou pior, morreu com dez tiros na cabeça e oito no coração sem nunca tocar em um só tostão do poço.
O povo dali é muito confiante naquele dinheiro, o milagre está por ali o dia inteiro, basta estender os olhos para ver, pois até o neto do Cidão deixou de fumar maconha, agora o velho dispara três moedas grossas por tarde pela salvação do moleque. Fabrício só fuma cigarro e deita-se o dia inteiro, vive branco de pálido e diz sentir falta das roupas, parece estar sempre de febre, é por esse motivo que todos dali o apelidaram de Febrício.
O que nunca falta é assunto para Malécia e Zionora, esta chora ainda, e aquela zomba a ter trincas, uma pergunta se pode contar um segredo, pede para nunca contar a ninguém, a outra disposta a ouvir tudo responde: “pode deixar minha querida, minha boca é um túmulo, pela salvação de meus queridos filhos e pela alma de minha donzela vó, eu guardo segredo”. Lá vai, a língua de uma cortando como navalha a gentileza e crueldade estancada d’outra, interesse, apenas interesse.
“Bingo”!
            O carro de Seu Inácio passa com os altofalantes no último volume, o carro faz com que estremeça o chão e as pessoas se olhem a dizer entre si: “Bingo”! Todas as novas bolas todos os novos prêmios e com a ilustre presença de nosso reverendíssimo padre Dom Vadislau de Quiatra de Lãs Terras del Papa, todos presentes com muitos presentes, Bingo!
O domingo cai como maçã do amor, Zionora com a nova saia, saia de velha enferrujada, toda desfalcada e endrelada, ainda com a coragem pulsante de perguntar a Malécia: “este vestido ficou tão bom, não acha”? A outra com um sorriso e uma calça frouxa faz conseguintemente uma afirmação com a cabeça, uma com inveja da outra, mas nunca admitem e dizem estarem sempre afrodisíacas. O bingo começará a pouco, todo o mundo presente, o bairro e outra gente que ninguém conhece, é motivo de riso, é motivo de falatório, Seu Inácio completa que uma parte da renda, à pedido do reverendíssimo padre irá para a capela do bairro, por falta de verbas, e completa que é só com a ajuda deste hospitaleiro povo que este lugar levantará até as nuvens, e para a salvação de todos, o digno será o porvir de cada confiado ser humano desta terra, todos respondem com um “amém”.
            Noutro dia, falatórios, do dia para frente foram três meses e nove dias de falatórios, uma noite as duas madames ficaram de chimarrão e papo clorado até onze da noite, “você viu só a roupa do padre”? “Ai, louca do céu, você viu só aquela gente estranha? Tinha uns bebendo, outros fumando” (as duas não ganharam nada no último bingo, até hoje nunca ganharam nada, porque quando compram as cartelas esquecem de levar o feijão, ou qualquer outra coisa para marcar, aí dão a desculpa e ficam num cantinho a cochichar).
“Esta coisa de padre se meter em jogo, eu acho estranho, você não acha não”? “É, eu acho”.
Inácio lucrou bem, a metade foi mesmo para a capela, agora com certeza o padre começará as reformas e o mais importante, vai pôr o telhadinho no poço das virtudes humanas para que nunca mais chova e molhe o dinheiro lá de dentro, abençoado por ele. As mulheres festejam, o dia é de comemoração, festas e explosões, bombas e trovões, todas felizes e os homens no truco, cada qual com seu copo na mão, muita carne muito pão, sem falar das trombetas, das flautas e das violas que está a banda a tocar, um homem alto com a sanfona, um de média estatura e pautável com a flauta e um gordo de cara vermelha toca a viola, cantando e rebolando feito carnaval.
No outro dia todos do vilarejo dormem até muito tarde, a bagunça foi até a madrugada e impreterivelmente todos devem estar exaustos de canseira, o primeiro a abrir os olhos é Lolinho, um mini-homem com quatro anos de idade, desce com todo o cuidado de seu berço e vai até a porta, abre-a e enxerga ao longe o sol com sua força estridente e lá em cima, no fim da estradinha de pedra ainda consegue ver, o Reverendíssimo padre com Seu Inácio, juntos vão rindo indo de carroça quem sabe aonde, carregando puxado numa corda de força o poço da eterna salvação. 

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