terça-feira, 2 de outubro de 2012

Noite de Insônia




Quase meia noite quando me acordei, fiquei mórbido e sem lembranças na cabeça, parecia que havia deixado de viver enquanto sonhava coisas das quais não mais me lembrava neste instante. Agora parece que ainda estou tonto daquela noite de insônia. Permaneço lúcido, mas fora do eixo. Tenho uma vida boa, acordo sempre bem cedo para preparar o café da minha amada. Em seguida, ainda no escuro, ela vai ao trabalho, pega o primeiro ônibus em três quadras de nosso apartamento, depois desce na estação Ruy Barbosa e toma outro ônibus até a repartição. Observo-a ao longe, usurpada e sem coragem, mas no fundo arraiga uma coragem despida para enfrentar um novo dia de luta.
            Volto à minha cama, cabisbaixo, levanto-me novamente e preparo um leite com chocolate. Pego o controle remoto e coloco em canais simultâneos que não me levam a lugar nenhum. O telefone toca três vezes, na quarta quando estou a pensar com meus botões se atenderei ou não, a ligação para sem respeito. Compreendo dentro de mim um mundo de frequências elétricas que me deixam quase fora do meu próprio eixo. Minha mulher chegou no serviço, imagino, então é hora de me levantar da cama ainda com o cheiro do nosso amor e escovar os dentes, olho-me diante do espelho e noto uma barba maior, mais sombria e cheia de espinhos. Minha pele ressecada é vista da tramela do reflexo e neste instante a maior vontade a reproduzir em minha vida é a de tomar o creme de minha mulher e passar no corpo inteiro, não daria tempo para isso, preciso ir ao trabalho, passo duas camadas, somente na face e nas mãos, dou alguns tapas na pele e saio do banheiro com cheiro de limpeza.
            Tranco a porta do apartamento e realizo mais uma experiência: viver um dia sem saber o que será. Na rua abasteço meus olhares com a playboy da esquina, ao encontro de um conhecido de vista aceno com a mão e um olhar sorridente, depois me volto ao ponto de ônibus, no qual vem um amarelo com um itinerário embaraçado, ou sou eu que ando precisando de óculos. Ao passo que o veículo se aproxima, consigo entender a descrição, concluo a contagem de minhas moedas e entro na embarcação com um destino torto. “Dê preferência a pessoas idosas, gestantes e deficientes”, depois desta mensagem, observo que ao canto existe um senhor de aproximadamente setenta anos em pé, com um olhar exausto e um queixo caído de sono, em sua frente há um garoto de quase vinte anos com a cabeça baixa, mole e sem molas nem nervos, dorme ou finge dormir para não ceder lugar em uma hora tão delicada da vida. Este instante passa-se despercebido aos olhares das pessoas que ali se encontram.
            Ao chegar no meu trabalho esmoreço, sinto uma dor de barriga tremenda e vou logo ao banheiro antes de atender o primeiro cliente, uma bela senhora e me olha de canto de olhos como a pensar que sou um estúpido. Acredito que o jantar da noite passada tenha me feito mal. Meu estômago anda encrencado, por sorte consegui chegar no escritório a tempo de explodir. Limpo o rabo e puxo a descarga, nada mais me aflige porque a melhor sensação na vida do ser-humano é sentir-se por completo feliz. É feliz quem tem fome e por conseguinte, comida. É feliz quem treme de vontade de fazer sexo toda semana e, por conseguinte, tem alguém a quem se doar. No mais a vida é enjaulada em pareceres que se misturam muito bem aos escândalos públicos, a vida é algo individual que se torna de forma inapropriada um dever de todos.
            Ao meio-dia em ponto minha mulher me liga, o celular toca três vezes e na quarta quando vou atender através de um toque misto no celular ela desliga, em seguida tento entrar em contato mas só dá na caixa postal, que vá à merda, quem sabe o que faz é rei dos próprios passos.
            A história de minha mulher é longa para ser contada em poucas palavras, mas estamos juntos a mais de vinte ano e até hoje, por incrível que pareça, ela diz nunca ter sentido orgasmo, não sei se pelo fato de eu ser homem mas, consequentemente me sinto bajulado com suas histórias. Ela fala num tom retroativo querendo me impor que o dever de cada homem é dar prazer à mulher, ora, eu tento de tudo quanto é jeito, mas ela não vai, ela é de ferro, parece uma estátua que ameaça a qualquer instante desabar.
            Amanhã completo mais um ano de vida, meu aniversário. Ater agora ninguém falou nada sobre a data, mas tenho certeza de que aqui no escritório cantarão os parabéns e depois sairão falando mal pelos cantos, toda empresa é assim e aqui, por exatidão nas minhas finas palavras, não é diferente.
            O dia voa. Não sei por que razão é que o tempo passa tão longe de minhas memórias. Minhas lembranças se apoiam em realizações mal finalizadas. Eu bem pareço um Da Vinci com suas obras intermináveis e por falar nele, tenho meu vídeo-game como ele tinha a Monalisa, carrego esta máquina debaixo dos braços com muito carinho. Estou para fechar mais três joguinhos e dentre eles o principal é o Campeonato Brasileiro 2010. Chego em casa e a primeira coisa a se fazer é ligar a TV. BBB com todo talento. Uma mistura de zoológico com manicômio. Os homens de lá se parecem muito com cavalos porque são sedosos e grossos, simpáticos e elegantes e por outro lado olham somente à frente, já as mulheres são revertidas, umas gostam de salgado demais e outras doce demais e como toda novela o final é sempre o mesmo. Desligo a droga da TV e ligo o rádio na Ouro Verde, passam-se canções de minha época de guri. A melhor parte é a lembrança porque é exatamente nela que esqueço de lembrar que amanhã será um novo dia. Cochilo sob o colchão úmido e às 19h30min minha mulher chega aos berros. Acordo assustado.
            Ao nos beijarmos intensamente iniciamos uma briga sem motivos. Ela pergunta sobre o jantar, eu respondo que iniciei, que descasquei as batatas porém, as batatas acabaram, então peço para que ela ajude-me. Cansada reúne o pensamento em silêncio que bota em mim um medo sem explicação. Neste instante ouço uma voz gritar lá debaixo pelo seu nome, vou até a janela e vejo na esquina um homem vestido numa jaqueta de couro marrom, um óculos escuro àquela hora encostado sob um opala preto. Olho para minha mulher com desgosto e ela, aos poucos, vai se contorcendo de nervos, parecendo mulher com vontade de urinar, então eu penso em matá-la, por um instante, penso em bater nela por muito tempo e nada me sai da garganta nem dos braços, ela pega somente a bolsa, resgata atrás do rádio um batom verde-musgo e bate à porta em minha face, grito por instantes seu nome, para que volte e ela não volta, nada volta.
            Vou até a cozinha, preparo meu leite com chocolate e procuro a lista telefônica. Encontro alguns anúncios no jornal e encontro uma ótima pizzaria, peço uma promoção da noite acompanhada de uma coca bem gelada. Depois, ainda com a lista em mãos, destaco alguns telefones e entro em contato com uma menina, peço para que venha até minha residência, estou só, a noite apenas começa e no outro dia acordo sem nada. A menina que me concebeu uma noite de amor rachado na noite anterior levou minhas memórias, meus cigarros e meu dinheiro. Minha mulher toca a campainha pelas nove da manhã e só então me dou conta de que ela havia saído com o irmão mais novo em busca de um coração para o pai que está internado no São Vicente à espera de um transplante. 

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