Quase meia noite quando me
acordei, fiquei mórbido e sem lembranças na cabeça, parecia que havia deixado
de viver enquanto sonhava coisas das quais não mais me lembrava neste instante.
Agora parece que ainda estou tonto daquela noite de insônia. Permaneço lúcido,
mas fora do eixo. Tenho uma vida boa, acordo sempre bem cedo para preparar o
café da minha amada. Em seguida, ainda no escuro, ela vai ao trabalho, pega o
primeiro ônibus em três quadras de nosso apartamento, depois desce na estação
Ruy Barbosa e toma outro ônibus até a repartição. Observo-a ao longe, usurpada
e sem coragem, mas no fundo arraiga uma coragem despida para enfrentar um novo
dia de luta.
Volto
à minha cama, cabisbaixo, levanto-me novamente e preparo um leite com chocolate.
Pego o controle remoto e coloco em canais simultâneos que não me levam a lugar
nenhum. O telefone toca três vezes, na quarta quando estou a pensar com meus
botões se atenderei ou não, a ligação para sem respeito. Compreendo dentro de
mim um mundo de frequências elétricas que me deixam quase fora do meu próprio
eixo. Minha mulher chegou no serviço, imagino, então é hora de me levantar da
cama ainda com o cheiro do nosso amor e escovar os dentes, olho-me diante do
espelho e noto uma barba maior, mais sombria e cheia de espinhos. Minha pele
ressecada é vista da tramela do reflexo e neste instante a maior vontade a
reproduzir em minha vida é a de tomar o creme de minha mulher e passar no corpo
inteiro, não daria tempo para isso, preciso ir ao trabalho, passo duas camadas,
somente na face e nas mãos, dou alguns tapas na pele e saio do banheiro com
cheiro de limpeza.
Tranco
a porta do apartamento e realizo mais uma experiência: viver um dia sem saber o
que será. Na rua abasteço meus olhares com a playboy da esquina, ao encontro de
um conhecido de vista aceno com a mão e um olhar sorridente, depois me volto ao
ponto de ônibus, no qual vem um amarelo com um itinerário embaraçado, ou sou eu
que ando precisando de óculos. Ao passo que o veículo se aproxima, consigo
entender a descrição, concluo a contagem de minhas moedas e entro na embarcação
com um destino torto. “Dê preferência a pessoas idosas, gestantes e deficientes”,
depois desta mensagem, observo que ao canto existe um senhor de aproximadamente
setenta anos em pé, com um olhar exausto e um queixo caído de sono, em sua
frente há um garoto de quase vinte anos com a cabeça baixa, mole e sem molas
nem nervos, dorme ou finge dormir para não ceder lugar em uma hora tão delicada
da vida. Este instante passa-se despercebido aos olhares das pessoas que ali se
encontram.
Ao
chegar no meu trabalho esmoreço, sinto uma dor de barriga tremenda e vou logo
ao banheiro antes de atender o primeiro cliente, uma bela senhora e me olha de
canto de olhos como a pensar que sou um estúpido. Acredito que o jantar da
noite passada tenha me feito mal. Meu estômago anda encrencado, por sorte
consegui chegar no escritório a tempo de explodir. Limpo o rabo e puxo a
descarga, nada mais me aflige porque a melhor sensação na vida do ser-humano é
sentir-se por completo feliz. É feliz quem tem fome e por conseguinte, comida.
É feliz quem treme de vontade de fazer sexo toda semana e, por conseguinte, tem
alguém a quem se doar. No mais a vida é enjaulada em pareceres que se misturam
muito bem aos escândalos públicos, a vida é algo individual que se torna de
forma inapropriada um dever de todos.
Ao
meio-dia em ponto minha mulher me liga, o celular toca três vezes e na quarta
quando vou atender através de um toque misto no celular ela desliga, em seguida
tento entrar em contato mas só dá na caixa postal, que vá à merda, quem sabe o
que faz é rei dos próprios passos.
A
história de minha mulher é longa para ser contada em poucas palavras, mas
estamos juntos a mais de vinte ano e até hoje, por incrível que pareça, ela diz
nunca ter sentido orgasmo, não sei se pelo fato de eu ser homem mas,
consequentemente me sinto bajulado com suas histórias. Ela fala num tom
retroativo querendo me impor que o dever de cada homem é dar prazer à mulher,
ora, eu tento de tudo quanto é jeito, mas ela não vai, ela é de ferro, parece
uma estátua que ameaça a qualquer instante desabar.
Amanhã
completo mais um ano de vida, meu aniversário. Ater agora ninguém falou nada
sobre a data, mas tenho certeza de que aqui no escritório cantarão os parabéns
e depois sairão falando mal pelos cantos, toda empresa é assim e aqui, por
exatidão nas minhas finas palavras, não é diferente.
O
dia voa. Não sei por que razão é que o tempo passa tão longe de minhas
memórias. Minhas lembranças se apoiam em realizações mal finalizadas. Eu bem
pareço um Da Vinci com suas obras intermináveis e por falar nele, tenho meu
vídeo-game como ele tinha a Monalisa, carrego esta máquina debaixo dos braços
com muito carinho. Estou para fechar mais três joguinhos e dentre eles o
principal é o Campeonato Brasileiro 2010. Chego em casa e a primeira coisa a se
fazer é ligar a TV. BBB com todo talento. Uma mistura de zoológico com
manicômio. Os homens de lá se parecem muito com cavalos porque são sedosos e grossos,
simpáticos e elegantes e por outro lado olham somente à frente, já as mulheres
são revertidas, umas gostam de salgado demais e outras doce demais e como toda
novela o final é sempre o mesmo. Desligo a droga da TV e ligo o rádio na Ouro
Verde, passam-se canções de minha época de guri. A melhor parte é a lembrança
porque é exatamente nela que esqueço de lembrar que amanhã será um novo dia.
Cochilo sob o colchão úmido e às 19h30min minha mulher chega aos berros. Acordo
assustado.
Ao
nos beijarmos intensamente iniciamos uma briga sem motivos. Ela pergunta sobre
o jantar, eu respondo que iniciei, que descasquei as batatas porém, as batatas
acabaram, então peço para que ela ajude-me. Cansada reúne o pensamento em
silêncio que bota em mim um medo sem explicação. Neste instante ouço uma voz
gritar lá debaixo pelo seu nome, vou até a janela e vejo na esquina um homem
vestido numa jaqueta de couro marrom, um óculos escuro àquela hora encostado
sob um opala preto. Olho para minha mulher com desgosto e ela, aos poucos, vai
se contorcendo de nervos, parecendo mulher com vontade de urinar, então eu
penso em matá-la, por um instante, penso em bater nela por muito tempo e nada
me sai da garganta nem dos braços, ela pega somente a bolsa, resgata atrás do
rádio um batom verde-musgo e bate à porta em minha face, grito por instantes
seu nome, para que volte e ela não volta, nada volta.
Vou
até a cozinha, preparo meu leite com chocolate e procuro a lista telefônica.
Encontro alguns anúncios no jornal e encontro uma ótima pizzaria, peço uma
promoção da noite acompanhada de uma coca bem gelada. Depois, ainda com a lista
em mãos, destaco alguns telefones e entro em contato com uma menina, peço para
que venha até minha residência, estou só, a noite apenas começa e no outro dia
acordo sem nada. A menina que me concebeu uma noite de amor rachado na noite
anterior levou minhas memórias, meus cigarros e meu dinheiro. Minha mulher
toca a campainha pelas nove da manhã e só então me dou conta de que ela havia
saído com o irmão mais novo em busca de um coração para o pai que está
internado no São Vicente à espera de um transplante.

Nenhum comentário:
Postar um comentário