terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Admirador Secreto


O correio chega a casa de Anita logo cedo, bate a campainha e ela aparece ainda com um olhar meio perturbado e sonolento:
- O que é?
- Correio, senhora! Entrega de correio.
- Ah, deixe aqui, por favor.
O rapaz se aproxima, acomoda a caixinha sob uma vasinha na área, pede para que ela assine o recebimento.
- Não precisa pagar nada não, né?
- Não senhora, é sedex normal.
O rapaz liga sua moto e se vai. Enquanto isso, ao invés de abrir a caixa, Anita volta para dentro, com um caminhar lento e compassado, sobe as escadas e deita-se sobre a cama larga, sozinha. Mas, ao mesmo tempo em que quer dormir, começa a pensar no que será aquela encomenda deixada há poucos minutos? Vira-se de um lado para o outro, dá de ombros e reflete: “quem mandaria alguma coisa para mim, logo a mim”? Fecha os olhos de forma bruta, brusca, mas, mesmo assim, não consegue se ausentar de sua realidade.
Há tantos anos não beija ninguém, há tanto tempo não trepa, não trampa, não chora nem ri, há muitos anos não brinca nem sai. Deve ser propaganda de alguma loja. Ora, não havia logo, nenhuma informação de marketing, quem seria? Os pássaros continuam a tagarelarem nas árvores próximas de sua residência, esta que por conta está tomada de mato, por bichos e névoas. Depois de tanto tempo sem limpar nada, seu lote virou uma floresta. Fica mais ou menos duas horas se remexendo na cama, liga o som, a TV, liga o toca-discos de seu falecido pai. E como passe de mágica, sua curiosidade revive em seu corpo, sua majestade renasce não sei de que nem onde. Coloca as sapatilhas rapidamente, desce as escadas e abre a porta. Um sol lindíssimo invade sua sala e ela, de joelhos, começa a estilhaçar o papelão da caixinha do correio, tímida e com um pouco de medo vai chegando ao êxtase daquele momento único de sua vida. Enfim, consegue retirar toda a capa e, já vermelha de tanto trabalho, observa um arranjo de flores do campo e uma carta com dizeres de amor. No final, na parte da assinatura consta apenas: de seu admirador. Ela então, coloca tudo dentro da caixa, entra na sala, deita-se no sofá e começa um drama, uma nova vida. Começa talvez, uma vida de sonhos e esperança delineada por uma paixão invisível, porém, que no fundo torna-se seu combustível, obtendo uma busca pelo inalcançável que precisamente a fará viver feliz pelo resto da vida.

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