
Pulo no aujar da simples vida que levo. Encontro-me de frente com uma piriguete que comenta radiolas da cabeça, perambula depois com um tênis maior que a cabeça e a calça mais larga que a capoeira. Adiante sigo em frente a um caminho quase nulo de vertigem, encontro-me de costas com a cidade que me viu nascer. Não creio em como toda esta vida esqueci-me do quintal don qual eu vim, dos pássaros aos quais acabei com suas esperanças e dos tomates que plantei no chão de minha terra. Depois me encontro de frente, volvente, com uma pessoa cheia de remorsos e medo nos olhos, estes olhos brilharam para mim como se fossem dois faróis ébrios numa madrugada de neblina e frio. Passo por ela e ela por mim, mas não nos passamos. Apenas de forma ainda estranha nos notamos meramente que um existe sem a necessidade do outro existir. Um espaço se abre em frente a uma população do terminal rodoviário, uma fila complexa de gente indo trabalhar, acendo meu cigarro e retiro do bolso com um pequeno buraco um palito de dente meio acabado de velho. Cuspo sob o chão que me viu crescer, não olho para trás, volvo-me diante da estepe da porta do ônibus verde e desço três pontos depois. Tomo um café compensado de um belo pão com carne. Patrícia me chama pelo nome, quando viro-me a notar sua presença ela abre um sorriso escandalizado e me abraça fortemente, sente na ternura um carinho inexplicável por mim, eu sorrio complacente e me divirto com a ocasião. Aparece o Sebastião, dono do bar onde me viro, Patrícia relata sua vida e sua miséria...menino! como você está mudado, da última vez que nos vimos você andava mal trapilho. Eu continuo na permuta entre o silêncio e tranqüilidade, desde cedo são as duas melhores qualidades. Agradeço com a cabeça em me achar, talvez, mais belo, mas nem eu sabia disto. Patrícia tem um sorriso ainda sôfrego no fundo, sei que necessita de ajuda ou qualquer tipo de auxílio, quando meu pescoço se vira ao lado da Rua Dos Vencidos, passa um garotinho sem chinelas, me olha de forma triste e me deixa triste com seu olhar, levanto meu peito e quando vou ao seu encontro ele desaparece como se fosse fantasmagoria. Agora chego à estância que meu pai deixou-me de herança, tem muitos cavalos e cabras, mas nada me felicita, nem na Patrícia consigo pensar, o cheiro de merda cru de vaca é dispensável a qualquer instante, as narinas nunca escolhem o que cheirar, da mesma forma que nunca se escolhe o assunto a que ouvir, a mente internaliza tudo num estado de cisterna, como se fosse a plasma de um momento eterno. A herança de meu pai está invadida completamente pelos sem-terra da aurora, eu não ligo para isso. Depois a Patrícia aparece novamente em meus sonhos, eu inicio uma busca perdida do que me falta e nada encontro, absolutamente nada. Beijo-a e nos unimos num só instante, o motor de um novo ônibus se liga automaticamente e saímos juntos para a concretude de um longo dia.
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