quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Infortúnio


Joaquina sempre fora boa moça, sempre fazia o que eu mandava, embora eu mandasse em poucas coisas naquela casa. Se bebia meus gole? Ora, o que isso embaça? Eu não tenho culpa do vício, o ser humano é promíscuo a estas coisas, ainda mais quando a vida não se vai lá muito bem. Mas Joaquina, hoje, vive a me culpar, chamando-me arrogante quando o que eu mais precisava era somente do seu carinho. Não me aflijo de jeito algum, toco minha viola. Fico feliz do mesmo jeito. Eu me sento todo santo dia pra descansar dos compromissos da vida na Praça Generoso Marques. Tento não pensar mais muito em minha eterna Joaquina, mas ela sempre fazia calor em meus ombros nos dias tenebrosos de frio. Agora, sentado aqui neste banco vendo os pombos defecarem sob os modos das senhoras de sorrisos abertos, sinto um calafrio por dentro, mas também é coisa passageira, somente passa por mim como um trem bala. Meu mundo gira um pouco mais rápido, num tom tempestuoso, a visibilidade da vida é afetada, e navios que não existem somem no cavado de suas vagas. Acontece em meu peito como nunca dantes visto, uma espécie de efeito, uma ressonância de Schumann. O equilíbrio que me havia prescrito, depois de algum tempo, dobrou de tamanho. Meu mundo se atraca num caminho sem volta, eu deambulo por minha única vontade. Passam dez minutos e os pombos se atiçam e voam em bando em direção ao centro da cidade, um mendigo passa por mim e cumprimenta-me com um leve e melindroso “boa tarde”. “Boa tarde”, respondo enfim com simpatia e pena, mas não devo ter pena porque também estou penado. Depois um moleque passa por mim com a mãozinha direita grudada à esquerda da mãe, ambos me olham de gauche e completam a caminhada rumo a uma loja de equipamentos. Minha mente retrocede mais uma vez, penso em Joaquina, minha linda, já não sabe o que é bom pra mim. Ela tem olhinhos de botões e na sombra pensa em ser feliz. Já não sei o que estou a dizer, e mesmo sem saber continuo estático como se fosse estátua viva de praça, muitos já iniciam um pagamento antecipado, jogando sobre meus pés, moedas de pequenos valores. Somente meus olhos acompanham as facetas, meus lábios também continuam parados, a luz do sol em movimento indica o meio dia da vida. Meu celular em silêncio, não presta porque não toca, o atiro sobre os arbustos do Museu da Cultura. Sete cães passam em minha frente, um deles, o último a passar, vem até meus pés e os cheira, faz uma cara de sobressalto e continua aos passinhos em direção aos companheiros de malandragem e confidências. O primeiro olha pra trás como a se despedir do resto da vida, ao atravessarem a rua, um opala azul escuro atropela o líder, um vira-lata teimoso que até à morte teimou em viver, através de gritos flamejantes e cruéis. Os pombos, em seguida voltam ao melhor lugar do mundo e, depois de uma semana, os ratos e os urubus tomam conta do cadáver já passado no asfalto em frente à Generoso Marques. Ninguém nada vê. Embora ninguém também nada sinta, eu ainda sinto no fundo do coração um sentimento alastrado pela Joaquina, sei lá o que pode ser. Ela sempre fazia o que eu mandava, depois se evadiu deste estado de ventura para um outro de lástima e desprazeres. Fora apregoada pelos misteriosos ventos do norte, num dia de clarão e até hoje, nunca mais, nada se ouviu sobre a Joaquina, vai ver, tornou-se heroína. Minha mais singela peça encantada se deparou com uma tarde ensolarada, hoje em dia não tenho mais nada e nada me comove porque deambulo.

Um comentário:

  1. Digo-te que a Prefeitura precisa de um "chega prá lá"! Aqui não quero ver esse pouco caso com a limpeza pública! Humf! Uma semana depois e um cão sem dono continua morto na rua?! De verdade que não quero acreditar nesse descaso.

    Da Praça Generoso Marques, esquecendo desse cachorro falecido, gosto.

    Da Joaquina nada sei, não a conheci.

    Abraço!

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