A Literatura amedrontadora não é muito a minha praia, mas a gente inventa:
Lúcio caminha com movimentos curtos até a escada que leva ao porão de sua mansão. Alguém, neste momento, bate à sua porta, quem seria? A ausência de resposta se fez inoportuna ao momento e ele, cultivado por um sabor liquefeito dentro da garganta continua a caminhar. Abre a porta que dá à penumbra de sua adega e vê de frente com seu melhor amigo Rogério. - Rogério, meu grande amigo, o que faz aqui? Quanto tempo! Quantas saudades de ti...Em resposta o amigo movimenta os lábios com a língua usurpada por dentro das bochechas, nada responde em palavras, apensas seus gestos miraculosos dão a entender que precisa de alguma ajuda. Lúcio sentia-se mal pela umidade que havia no porão, entre os tijolos úmidos avermelhados e sujos pela terra que dava um cheiro de mofo e coisa guardada há muito tempo. Então Rogério começa a caminhar e aos poucos, Lúcio percebe que o amigo tem um seguidor, tem alguém atrás de si e não consegue, por causa da escuridão, responder o que nem o que significa. Ouve-se novamente um estrondo na porta superior da sala de estar, Lúcio pensa que sair dali seja a melhor coisa a fazer, porém, seu amigo precisa de ajuda, a casa é grande demais e neste instante onde estará Rogério. Gritos de Lúcio ecoam no porão, a rispidez da umidade cede o líquido esfumaçado que se solta das sombras, tonéis de vinho encontram-se ao silêncio eterno daquele instante e não há resposta de qualquer ser com vida naquele lugar. Mais um barulho na porta da sala e Lúcio grita quase rouco “Quem está aí?”, o que em resposta vem a voz lúcida do grande amigo Rogério: “Sou eu, amigo”. Neste ato, Lúcio corre até a escadaria, tenta forçosamente abrir a porta, mas está congestionada, interrompida por manchas de sangue e não abre, seu sofrimento começa a se personificar de forma trágica. A porta superior continua, mas agora com um ruído mais forte. Rogério solta gritos de tortura e não há ninguém no porão, só Lúcio consigo mesmo. Ouve-se uma coruja do lado de fora, um sinal? Talvez, mas nenhuma resposta do grande amigo Rogério. Então com a ajuda de uma escada, Lúcio consegue retirar parte da cabeça para fora, através de uma fresta do porão que por sinal, irrompe um facho de luz amarelada, o luar se mostra altivo e aos poucos, mudo e com força Lúcio consegue sair com parte do corpo à parte superior da casa, em seguida está livre, observa sua mansão ainda prejudicada pelo vento que levou grande parte de sua arquitetura, suas origens remontam a tempos idos e agora Lúcio sofre com uma respiração fugaz. Olha ao alto, sob o teto, e um ruído vem da parte inferior da casa, do porão onde estava. Lúcio chama pelo amigo, nada de resposta. Em seguida levanta-se com a roupa suja por um sangue negro, começa a correr, ao chegar ao quarto ainda ouve ruídos que agora parecem vir da cozinha, volta-se de prontidão e caminha mancando, ao passar pela sala de estar, em um silêncio perpétuo com grande tempestade do lado de fora da casa observa sua lareira acesa e sua imagem no quadro sob uma escultura em ascensão. Nota que em sua poltrona está sentado seu melhor amigo, Rogério, este o convida para sentar-se e beber uma Bordeaux, apreciar a noite e lembrar a adega onde trabalhava até os trinta anos de idade. Neste impasse Lúcio lembra que Rogério morrera há dezessete meses e que o dia inaugural de sua vida foi sexta feira 13.
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