quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Poema mal resolvido

Não te capacita pelo enredo que traz no gogó
Teu primeiro desejo é o de fazer-se entender num mundo cruel e vasto.
Já o segundo desejo talvez seja o improvável desfecho de uma vista estanque e incrédula.
Não me admira o teu jeito estático e tísico como a um milagre mal resolvido,
Porque se milagre é, é realístico, veio necessariamente do pó.

A agonia que te subverte os sentidos
É a mesma que te amargura por dentro das entranhas.
E o alimento de que te serve é o instante que perde ao dispor a vida na internet
(Este poema só tem a dizer, não interessa seja verdade ou não!)

Não te relacione com a alteridade que tanto desconhece.
Não me admira que tanto te relacione(?)
Meu mundo egoísta e íntimo alerta-me a expressar-me e só,
Já que dos tantos nãos, ditos e reditos,
Emerge a ideia de alguns sins complacentes e indistintos

Idiossincrasias existem a todo tempo.
Intimidades existem o tempo inteiro.
Metade das tarefas são feitas porque só.
Só são feitas por causa da propaganda.
Feitas por causa do destaque.

Trabalha pelo destaque, e só!
Trabalha de aconchego, e só!
Trabalha pela lágrima, e só!
Amargamente me escalda

E me torno, logo logo, pó.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A bota e a botina



A botina lamacenta já não reclama mais
Como devia.
A bota austera e elegante
Continua a pisar sobre ovos
Num inverno que serve de alimento
Àqueles que observam pelas janelas
O evaporar dos automóveis.
“Ó, mais uma olhadinha”,
A botina com sola de pneu, empoeirada grita,
Só que já não sabe por que grita!
“Ó, o ar fresco que se aproxima”,
Talvez traga alguma resposta
Ou, no mínimo, grita pra que a gente fuja
Dessa doideira.
A bota agora sobe as escadarias,
Atravessa escombros,
Rompe atmosferas,
Aquece-se.
Esvai-se.
Perfumada e eloquente, discursa.
Amarela, frouxa.
Verde, cai, ainda verde.
Azul, congela.
“Ó, veja ali”,
A botina rastela a terra escura,
Bate o martelo,
Cada martelada uma permuta
Pela esperança de chegar em casa
Ainda viva e encontrar o filho
À sua espera, com um olhar melancólico
Como a suplicar:
- Papai, você faz um martelo pra mim?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O tempo não é


Não, o tempo é.
É a história mal contada.
A dúvida atemporal esquecida
Cujo fardo se dilui pela vida.

O tempo é.
É o relógio de areia,
O sol, o sul, o céu.
É a poesia lida,
Esquecida,
Preferida.

O tempo... Talvez o
Espaço etéreo ou o eterno
Pensar.

O tempo é a sombra,
Não a claridade...
É a antítese
A mesóclise ou qualquer hipótese.

O tempo...não o ontem,
Nem o hoje, quem dirá o amanhã...
É inefável, potente,
Infalível...

O tempo de outrora,
Que se corporifica no agora
É lento e demora!

Mas e se o tempo não existe?
Desiste-se a tempo do tempo
Ou com bravura o enfrenta?

Há tempos se fala sobre
Este psicológico e impreciso termo:
Este tempo de cujas margens se alimenta a memória.

Só que esta cronologia incerta,
De tantas teorias parida,
Talvez certeza ou incerteza signifique,
Ou talvez represente o próprio talvez
Que sempre ganha tempo
Para definir esta nossa maior dúvida:
O tempo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

De seis em seis...

...E se são as palavras ditas as mais importantes
Imagine só as não ditas
Aquelas que a gente esquece na hora da reza ou do beijo
...E se o mundo é tão ruim como dizem
Por que tanto feliz somos?
...E se mesmo em um turbilhão de mensagens
as nossas imagens permanecem nas nossas cabeças
É porque temos algo de especial
...Sei lá se sonho ou se acordo
Mas se acordo tem que ser do seu lado
e se durmo, dentro de teu espectro de mulher
Inteira.
...Inteira no coração e n’alma
Inteira na pressa e na calma
Compreendida no meu coração
De tanta comoção transparecer
Em meu ser até tornar-me um outro ser,
Destes por aí como são, o seu sempre amor
Para toda hora
Como a melodia que nunca falta
Quando a gente mais espera,
Como a lua que se agiganta
No crepúsculo sob montanhas amarelas.
...Esse será o meu carinho por seu jeito de ser,
de pensar e agir, por amar quem me ama
a todo momento.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Admite-se


Admite-se, garanto, mão-de-obra barata.
Pago o quanto desejo de quanto posso,
Pago por desmandos, cujos impropérios
Constroem-se e destroem-se em castelos
No modo imperativo da vida em misérias.
Admite-se, garanto, trabalho escorregadio.
Pago pouco por causa do imposto. (O governo me fode).
Pago por pagar, nada tenho a perder.
Garanto e, se duvidar, mando-lhe ao inferno,
Porque estando lá nada preciso pagar
E nada tenho a dever.

Tempos


Gastam-se as metáforas
Por séculos de espera pela língua-lâmina.
Lânguida no sentido ébrio, expulso do tédio
Causador de esperanças.
Transformam-se em diásporas os escombros,
Os restos de pó do cimento, da areia, dos nervos
E do sangue.
Agora, este impropério de tempo
Que se faz contraposto
Retrata ilustradamente as distintas idades da cidade,
Cujo ferro em aço
Não relata o que faço.
Passo adiante.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Soneto a um tolo do século XXI, baseado no Boca do Inferno.



Se pra ser tolo como é o tolo aqui
Basta a “economia” do Greca ver
Notório saber que quer entreter
Pra depois esculachar e sorrir.

Se pra ser burro é ato em distrair,
Provém o “congelar” do Richa ser
De intermédio um modelo nascer,
Não se sabe pensar ou subtrair.


Mas se todo encanto ainda correr,
Basta ao idiota: camisa amarela,
Depois em desvario bater panela.

Esquece-se tudo pela mazela
Confunde-se o bom com o zé-ruela
E, bem no final, há de tudo “temer”.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sei lá


A dor
O alimento
O alento em tédio, removido como arquivo duplicado.
O mar
A ausência
O amor
Amar o perdido por demência,
Estar confuso ou sê-lo.

Entanto padeço deste conjunto
de substâncias longínquas.
Revisto-me de um item tenebroso,
Quase como um olhar
A navegar confusamente
sobre um oceano sem água
Sem horizonte...
Escandaloso...
Sem palavras...


A cor
O momento
O tormento dos prédios - promovidos como na vida o cimento danificado.
O ar
A transparência
O horror
Sonhar com o transmitido por obsolescência,
Estar emaranhado ou amarrado...
Sei lá!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Uma vaguidão absoluta


Sob imprecisão temporal:
- Vaguidão só.

O tempo próprio
Foi  nosso contra contexto;
Um tempo absurdo
Com nuanças belas, mas tristes,
Como tristes donzelas a tomar chá.

O nosso absoluto couro da vida...
A pele, o pelo dos braços,
O absurdo irrequieto dos dedos
Cintilantes e envolvidos
Na diáspora inquietante
Do like na net.

Network ou netchat:
- O chato é se identificar!

O tempo foi nosso contratempo.
Por que não nascer antes ou
Por que não nascer depois?


Só quem ama sabe que o agora é após,
Que o sentimento que se conduz
Reflete o paradoxo da vida em pó.
Essa estranha e escondida
merecida Avenida XV de novembro,
Onde os mais esgotados milagres
Subsistem e perduram até
O fim do mês,
Outras vezes até dezembro.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Indizível cantar meu

chuvas

Indizível cantar funesto este meu;
Quanto mais canto,
Mais encantado estanque permaneço
No instante que se perdeu.
Só que enlouqueço nesse sonhar
Invólucro, quase consagrado não-lugar,
E alimento minha esperança
De pensar no efêmero
Ou meio eterno.

[...]

Inexorável instância do alento
Retrógrado, agradado por pensamentos
Lentos, de tempos em tempos...

Levo à válvula de escape os olhos crus,
Nus de pureza a alma carbônica
De praças surrealizadas.

Levo à poesia que leva a nada
Do lugar comum a fumaça ionizada
De momentos de trabalho árduo,
Suor, cansaço, sintomas e esperança alada.