sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Chamo-me Brasil
Uma menininha perguntou-me qual meu nome, respondi de pronto, Manuel. Sei lá porque Manuel, apenas Manuel. Encontrei-a numa estrada vazia onde numa esquina havia uma vadia a desvairar-se de álcool e crueldades. Continuo a caminhar pela ruazinha sinuosa e turbulenta, meio obscura e depois de alguns instantes aparece à minha frente um policial, levanto as mãos ao alto e ele, cabisbaixo diz: “Estou de greve, não estou a trabalho, vagabundo”. Continuo minha trajetória. Em seguida encontro-me de frente com um incêndio, uma mãe desesperada diz que seus filhos estão dentro da casa e pede-me para salvá-los, não ouço seu pedido e os bombeiros estão em greve também. O Sindicato paralisou tudo. Depois me vejo atrelado a inúmeras crianças diante de uma escola abandonada em que um mato cresce devastadoramente, Improviso um ponto de interrogação sobre minha cabeça e nisso, um menino de mais ou menos oito anos me puxa pela calça e diz: “Não tem aula moço, não tem fessor”. Coloco minhas mãos no bolso e finjo não ouvir. Meu caminhar torna-se mais lento, meu pesar me crucifica e eu vou indo pela beira da rua, sem direitos, sem deveres e sem rumo. Depois presencio um estupro nu e cru na periferia da cidade. Drogas são levadas como se fossem flores e jovens gritam sem razão. Um palhaço amedrontador tenta roubar-me sem êxito, pois fujo rapidamente e me escondo num restaurante chinês. Embora aqui ninguém me ouça eu grito desvairadamente e louco por completo me ponho no calçadão da XV à procura do desconhecido. Ali, manifestantes com bandeiras roubam minha coragem e, logo acima, na Boca Maldita gays e lésbicas paralisam as ruas com suas dialéticas e reflexões sobre um mundo melhor e sem preconceitos. Neutro, sento-me num banco da praça, vem uma menininha e pergunta-me pelo meu nome, fico mudo, triste e reluzente como qualquer dia de abril. Ela leva de mim o que me resta, pergunta-me, aos poucos, mais uma vez pelo meu nome, digo impacientemente que me chamo Brasil.
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