Não existe testemunha mais terrível – acusador mais poderoso
– do que a consciência que habita em nós (Sófocles).
Foi quando te chamei pelo nome. As mesmas palavras de sempre
e se eu dissesse coisa desigual estaria tudo acabado. Vivi ali naquele lugar
com aquele homem por uns três anos, depois ele achou outra mulher, foi-se
embora. Não mais o vi. A vida da gente é assim, as pessoas entram em nossa vida
e de uma hora para a outra, sem hesitar, se vão como nuvens passageiras. Sofri,
não minto, mas, sofri calada, em leves choros perdidos daqueles que doem o
peito e que dão o prelúdio para as lembranças e tédios. Sofri comigo mesma para
não espantar as amizades.
Hoje convivo comigo e não sei quem sou. Tenho pena e medo de
mim. Depois do meu último contato com aquele homem nunca mais fui a mesma
mulher. Lembro-me do seu jeito de ler, de falar seriamente sobre as coisas do mundo,
de seus sofrimentos, enfim. Eu o matei. Não é isso o que pensa? Não, eu
simplesmente o matei dentro de mim e esta é a pior das mortes. Enterrei-o com
direito a velas e missa.
Agora estou esganada e sem nada para fazer. É um tédio morar
aqui sozinha. Eu não sou sozinha. Tenho minhas amigas que de vez em quando vem
aqui. Esse meu desespero não me engana, eu sou mais simples do que os meus atos
hipócritas. Assassinei um homem dentro de mim e criei depois disso uma sombra
de estilhaços e palpites furados. Agora sou modesta, furtiva. Roubo fácil, mato
fácil, faço fácil e mesmo assim não me vejo como uma mulher fácil, simplesmente
uma célula de coragem. Um ponto na vertigem que se parece comigo quando me vejo
no espelho.
Mudei, mudei muito e vivo num país que muda a cada segundo. O
meu Brasil tem um jeito manso que é só seu, e que me deixa louca, sempre. É
muita pressão. As greves, a política, a religião e eu? O que faço com estes números?
Eu estou a saborear as negligências de um Estado corrupto em que as condições
de vida são péssimas, estou a aplaudir o meu povo que se lamenta e se bajula e
me chama de puta, mas, que no fundo me adora. Às vezes me arrependo e outras
vezes me compreendo, embora isso nada signifique a você leitor ou leitora, eu
continuo meu delírio. Para se ter noção as
despesas de anos anteriores não pagas pelo governo chegaram a R$ 85,543
bilhões. O valor foi divulgado nesta sexta-feira em edição extra do Diário
Oficial da União, no mesmo decreto que detalha o corte de R$ 55 bilhões nos
gastos deste ano. E eu querendo pôr silicone, que vida cruel. Eu sem
dinheiro e sem jeito. Não tenho culpa, a culpa é de minha cultura, do meu
lazer, a culpa está à minha volta e não em mim. Vejo-te hoje
cedo e te chamo de volta para morar comigo, você descobre que está perdidamente
apaixonado mais uma vez por mim e nos beijamos, meus lábios carnudos
encostam-se aos seus e nos abraçamos como da última vez na praça. Vamos juntos
embora e sem culpa alguma nos matamos.

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