quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Três acordes no bar
Estou no Bar da Splinter, abasteço-me de um álcool solúvel e intrigante. Não demora muito chegam três moleques de preto, um com a camiseta do Nazareth, outro com a do Guns e o último, mais metal, com a do Black Sabbath. Viro meus olhos para enxergar melhor e, neste ponto, os caras se adentram no boteco e cumprimentam-se docemente. Quem vê cara não vê coração, não é? Então, dentro de poucos instantes inicia-se um diálogo mais ou menos assim:
“Cara, sei lá, viu, eu to enrolado com uma mina, mas, ela é doida, fuma que nem desgraçada e não pensa muito, é só curtição, to fora”, enquanto os outros como psiquiatras já velhos de casa dão indicações: “ E eu? Oras, deixei disso, meu. Eu tava casado com uma aí, fiquei um ano. Olha só, enquanto eu comprava uma cueca ela queria três calcinhas, aí não tem bolso que aguente” .
Aos poucos intercalo aquelas vozes em meu cérebro como se fossem frutas num liquidificador, consigo imaginar o que se passa em cada pensamento daqueles meninos, porque fui roqueiro também, porque fui como eles, também. Papo vai, papo vem e eu aqui, no silêncio. Até que na quinta cerveja eles se alinham numa filosofia primordial, iniciam uma conversa sobre a bíblia: “cara, pra você ter ideia, a mulher inventou a mentira, por quê? Porque quando Deus perguntou pra Eva quem comeu o fruto proibido, ela de pronto respondeu: ‘foi a serpente’, que serpente o quê, isso foi papo furado”, então um silêncio rompeu-se no melindre. Cada qual em seu canto e um bêbado equilibrista do outro lado da porta a observar atento o romper do sol junto dos três filósofos roqueiros. Acho que os meninos devem ter alguma banda, só pode. E no fim, depois de umas duas horas quando eu, a passar dos limites em meus goles, um deles diz: “Oh, hoje minha tia vai fazer um churrasco lá na chácara, vamos?”, e de resposta: “Sei não, meu. To duro, sem um tostão”, então há um retruque: “Eu pago cara, peço para ela buscar a gente aqui, e não esquentar a cabeça”. Contudo, há um silêncio que intermedia as horas sem voz e vem outra resposta: “Então, vamos lá cara, vamos, sim”. O de camiseta do Nazareh é o patrocinador da festa, pagará, além do churrasco, a locomoção dos brothers mais estadia na casa da tia. Eu rio e me apreendo no fim da conversa. “Vamos vazar?”, de retorno vem um sim indiscreto. Iniciam uma busca fantasiosa de dinheiro nas carteiras, carteiras estas só com uma identidade novinha em folha e um CPF azulão. Cada um retira suas moedas, põem tudo sob a mesa e por incrível que pareça, o dinheiro paga na tampa, inacreditável. Se despedem e se vão. Depois daqueles instantes de alienação me despido também e me vou, bons tempos foram os de moleque sem um tostão furado, em que três acordes faziam um som perfeito.
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